Fé e razão: para entender a condenação do fideísmo por Papa Pio IX
- 18 de ago. de 2017
- 6 min de leitura
Fé e razão
"Dormir é um ato de fé. Dormir significa que você acredita numa ordem superior que controla tudo. Dormir significa acreditar que você não tem no ombro o peso de salvar o universo no dia seguinte. Karl Marx dormia, no entanto, todos os dias acordava e ia inventar a solução para os problemas da humanidade". (Olavo)

-------
(Texto meu)
Fé e razão não se separam. A fé é o impulso da alma voltada ao bem para acreditar naquilo que razoável crer (acreditar vem do latim 'creditu'. Ou seja, do ato de creditar sua fé em algo. Crédito. Quem ACREDITA na evolução tem FÉ na evolução, dá CRÉDITOS à evolução). E todo esse processo é inerente a todo ser humano. O Fideísmo, ou seja, a separação entre fé e razão foi condenado pela Santa Igreja Católica no século XIX pelo Papa Pio IX.
Vou dar um exemplo bem fácil do que é a fé e a razão, ambas são parte de um todo intelectivo da alma. Apesar de haver uma certa distinção, não há uma separação, porquanto são complementares e é impossível que a realidade seja entendida apenas pela "fé" ou pela "razão".
Brasília é a capital do Brasil. Todos afirmam isso. Mas existem pessoas que jamais foram a Brasília. No entanto, elas continuam tendo fé que a capital federal está lá e que está localizada a "x" quilômetros de suas casas. Elas ACREDITAM que existem pessoas lá, que existem prédios, que a realidade que as abarca também abarca aquilo que elas chamam de "capital do Brasil". A pessoa que jamais esteve em Brasília acredita que Brasília é a capital do Brasil pois é RAZOÁVEL CRER nisto. Por que? Porque OUTRAS pessoas estiverem lá; porque a realidade das coisas nos diz isso --- documentos, fotos, testemunhos, relatos etc. Ou seja, a pessoa que ACREDITA que Brasília seja a capital do Brasil está dizendo que ela tem um ato de fé e razão naquilo, pois a realidade me mostra isso. Ou seja, a fé é o impulso PRESENTE EM TODOS OS SERES HUMANOS para confirmar no intelecto aquilo que a razão de ser das coisas nos evidencia. E, antes, para crer nisto, ela precisa também admitir a própria existência (obviamente que ela não pensará nisto, mas ela só admite que Brasília existe e é a capital do Brasil porque ela também tem sua existência em conta mesmo que não pense a respeito). E notem que uma pessoa no Japão que desconhece que a capital do Brasil seja Brasília não interfere na existência da capital e nem na fé daqueles que acreditam que Brasília existe.
Para todo este processo, não existe a possibilidade de se dizer que você apenas acredita no QUE A CIÊNCIA pode provar. Pois ACREDITAR É DAR CRÉDITO. A ciência não prova a própria ciência, não prova a existência do EU, não prova um "ato de fé" simplesmente porque acreditar NA CIÊNCIA JÁ É TAMBÉM UM ATO DE FÉ (leia de novo: ACREDITAR NA CIÊNCIA). A ciência não prova porque a realidade mesma é a transcendente e é impossível enfiar a certeza que você tem sobre a "capital do Brasil ser Brasília" dentro de um possibilidade de "prova cientifica", já que, para isto, seria necessário antes acreditar na própria ciência. Ou seja, você teria que "provar que a ciência pode provar que ela pode provar que ela pode provar" infinitamente. Resumindo, a ciência NÃO PROVA A CIÊNCIA. Uma pessoa que quer a "prova científica" da existência de Deus está pedindo para que você prove a ela que a capital do Brasil é Brasília. É exatamente o mesmo processo. Toda "prova científica", portanto, só pode atuar naquilo que a experiência já tem em conta a partir do mundo dos sentidos. Você pode provar a paternidade de alguém através de análises sangüíneas, mas não pode provar que a prova científica existe. Como você prova à pessoa que "Brasília existe"? Você a leva num laboratório? Não. Você diz "olha, eu já estive lá", você mostra fotos, mostra pessoas de lá, mostra o mapa etc. Se ela for muito cética, você a leva até Brasília.
Então o que acontece é o seguinte: Deus é evidente pela criação e pela ordem. O ato de fé (porque é razoável crer) em Deus se ampara na razoabilidade do próprio cosmos. Por que é razoável crer? Porque você tem documentos? Não. Porque tem a realidade e a testemunha de Deus: a beleza, o amor, as coisas criadas, os animais, etc. A criação depõe a favor de Deus. Assim como não se faz necessário ir a Brasília para crer em sua existência, também não se faz necessária a "visão" de Deus para crer em sua existência. "Ah, mas se eu quiser saber se Brasília existe, basta ver uma foto ou o jornal". Ué, também é assim com Deus. Basta ver um homem e uma mulher, o cosmos. Eles são a prova. Você é a prova. Tudo na realidade terrena tem correlação com a realidade eterna. Elas não são absolutamente distintas. Só que no caso de Deus, por DEFINIÇÃO, Ele abarca TUDO. Se uma pessoa quer a prova de Brasília, ela pode ir até Brasília. A mesma coisa acontece com Deus. Você vai ter que querer ir NELE. A diferença é que Brasilia É PARTE da realidade e Deus ABARCA A REALIDADE TODA. Por isto que quem duvida de Brasília, pode ir lá. E quem quer saber de Deus, precisa procura-lo não como uma parte EXTERNA, como um objeto, mas como a realidade mesma. Por isso as pessoas mudam de vida, por isto ao querer Deus, elas almejam o bem, a contemplação. Participa-se da Pessoa Divina.
Com Cristo é exatamente a mesma coisa. Não se crê em Cristo apenas porque isto é um "ato de fé" (fideísmo. Mesmo que se use apenas esta expressão "ato de fé", este já abarca a razão. Portanto não existe ato de fé ou de razão, mas de fé e razão). Cremos Nele porque é razoável crer. Não preciso entrar na máquina do tempo e voltar 2000 anos para crer Nele. Quando você diz acreditar num dogma da Igreja Católica, você CRÊ porque é razoável crer. E por que é razoável crer? Porque a Igreja não define dogmas arbitrariamente, mas porque a realidade nos diz assim. "Cristo ressuscitou". A Igreja não definiu esse dogma porque "ela quis assim", mas porque isto é razoável através da compressão racional que se tem das explicações teológicas e metafísicas que advém das reflexões da Santa Igreja na hermenêutica Bíblica, além de outros documentos e relatos. Tudo isso é uma coisa só. E CREMOS também no Espírito Santo que guia a INTERPRETAÇÃO DA ESCRITURA e da definição dos dogmas. Mas aqui de novo a mesmíssima coisa: CREMOS (ACREDITAMOS, DAMOS CRÉDITO) AO Espírito Santo não porque a Igreja quis assim e "pronto acabou", mas sim como consequência da razoabilidade de tudo o que ocorreu. Assim também é com a Santíssima Trindade etc. As pessoas que querem "uma prova de Deus" não entenderam que isto somente é possível através da experiência.
Portanto, não existe "ato de fé" em contraste com "ato de razão". Separar as duas coisas é loucura de protestante, de Kant, de gente que não soube fazer a reflexão adequada das coisas.
{Brasília existe} "é ato de razão" e {Maria subiu aos céus} "é ato de fé" são distinções inexistentes e equivocadas. Ambas afirmações são atos de FÉ (e razão) porque NÃO SÃO ARBITRÁRIAS. Porque se faz razoável crer nelas a partir da REALIDADE DAS COISAS. Portanto, quando você diz acreditar em algo, você deposita sua fé naquilo. Quem acredita na ciência tem fé na ciência mesmo não podendo prova-la, já que a ciência não prova a ciência (como expliquei acima).
Separar as coisas entre ATO DE FÉ E ATO DE RAZÃO é errado. O "ato de fé" já abarca o ato racional, intelectivo. Por vulgaridade falamos somente em "ato de fé", pois ele já pertence ao processo racional.
Quando perguntaram a Jesus como eles poderiam saber se Ele era Deus, o que Ele respondeu? "Vocês estão vendo".
Quem não viu Jesus é o mesmo daquele que não foi a Brasília. Ou seja, Ele acredita porque é razoável crer. Se ele for cético em relação a Brasília, você pode levá-lo até a capital. Se ele for cético em relação à Deus, você só pode dizer para ele "procurar", "se abrir" etc. Já que a "prova de Deus" só pode partir da experiência.
"Ora, a fé é a certeza daquilo que esperamos e a prova das coisas que não vemos". Hebreus 11:1
























Comentários