Os sofistas de hoje e os de ontem.
- 4 de out. de 2016
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Os sofistas sempre foram aliados à democracia. Qualquer pessoa que fala demais em liberdade é uma tirana. O exemplo da democracia ateniense nos joga esse dado, que até hoje funciona exatamente da mesma maneira: Sócrates foi morto por expressar as verdades metafísicas que incomodavam os liberais da época, os defensores do "fale tudo, seja liberto, o homem é o centro de tudo". Sócrates entendeu que isso era um embuste. E obviamente foi morto, prefigurando a morte de Cristo logo depois. Os sofistas que mataram Sócrates eram exatamente os mesmos niilistas de hoje: mente aberta, libertos, relativistas e, claro, defensores exímios da "liberdade". Mas até onde vai o apego à ideia de liberdade absoluta? Até onde ela contrarie o seu arbítrio. Leiam o texto abaixo de Elton Flaubert (doutorando em história pela UNB).

Em 2006, quando tinha em minhas mãos um livro de Will Durant sobre a história da civilização, mais especificamente o volume que tratava da Grécia Antiga (não melembro qual deles), tive a impressão de que aquela história prefigurava simbolicamente toda história ocidental. Seis anos depois, quando li pela primeira vez Eric Voegelin, tive a certeza.
Como se sabe, Esparta situava-se entre altas montanhas com solo fértil, tinha estrutura militar, era agrária e aristocrática, com produção voltada para a subsistência. Atenas era cercada por montanhas e tinha saída para o mar. O comércio no mediterrâneo tornava sua estrutura social mais dinâmica, fazendo-a passar pelos processos de colonização, expansão do comércio e, consequentemente, empobrecimento dos pequenos proprietários. Diante desse quadro, a instabilidade foi resolvida com a difusão do poder. A democracia ateniense garantia a todos que eram considerados cidadãos participação na Eclésia.
A ameaça dos Persas uniu as cidades gregas na Liga de Delos. Atenas liderava a Liga, tanto financeira como politicamente. Após o triunfo contra os Persas, sob o comando de Péricles, a democrata, a liberal, a dinâmica Atenas, estendeu seu domínio – através da liga – sobre as outras cidades-estados gregas. Domínio econômico e predomínio militar, mas também político com a tentativa de criar uma Confederação liderada por Atenas para ingerir em assuntos locais e modificar estruturas. Quando a oligarquia tebana derrotou os democratas locais, Péricles exigiu a rendição dos aristocratas. O seu reino de prosperidade, troca e liberdade precisava ser ampliado.
Algumas cidades que se encontravam na Península do Peloponeso formaram a Liga do Peloponeso contra as ingerências atenienses. Esparta liderava a nova liga, mas Corinto (cidade marítima) era a maior rival marítima de Atenas. O estopim para a guerra entre as ligas foi o Decreto Mégaro, onde o democrata Péricles proibiu os comerciantes de Mégara de negociarem no porto de Atenas. Esparta, Corinto, Tebas e Mégara tornaram-se aliadas.
Em Atenas, Péricles ampliava a participação popular dentro da Eclésia ao criar novos cargos e remunerações, aumentando o número de atenienses que podiam participar das decisões. Os que se insurgiram contra Péricles foram jogados no ostracismo como inimigos da democracia. Como qualquer outro regime, a democracia tinha suas perdas e ganhos, mas desvelava a violência que funda qualquer ordem política (todas necessárias) como ninguém.
Mais do que isto, ainda mais simbólico é o embate entre Sócrates e os sofistas. Os sofistas eram um conjunto de homens identificados com a democracia. Eles viajavam pelas cidades-estados oferecendo seus serviços para ensinar estratégias de argumentação e as virtudes cívicas. O seu logos encontrava-se no discurso e não numa unidade fundamental que transcendia este mundo. Um deles, Protágoras imortalizou a célebre frase: “o homem é a medida de todas as coisas”. Outro sofista famoso, Górgias, defendia a não-existência do Ser, pois a verdade estava nas palavras e no seu uso retórico. O homem quando discursa está criando o mundo. A realidade é o meu arbítrio. Os sofistas eram liberais “avant la lettre”.
Ao contrário, Sócrates participa de um diálogo com o interlocutor para parir a verdade ali mesmo. Isto ocorre porque a verdade não é um arbítrio humano, mas uma ordem na realidade que pode ser contemplada e está gravada em nossa alma. O bem agir não era uma arbitrariedade humana jogada ao léu das negociações e trocas, mas um caminho que poderíamos contemplar a partir de uma forma-ideia do qual este mundo era imitação.
Sócrates foi condenado à morte como inimigo da democracia ateniense. Suas acusações foram três: não acreditar nos costumes pagãos, unir-se aos deuses inimigos, corromper os jovens. Seus três acusadores eram aprendizes de sofistas e amantes da retórica. Sua morte foi profética.
























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